divagações de uma vida monótona
iulo . 23 . salvador . bahia . analista de sistemas . ex-misantropo
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[30.5.08]

esquálido

Eu sofri uma tentativa de assassinato. Bruta e violenta. Inclusive. Estou deitado na minha cama, o relógio marca quase 23h00; flerto com o sono. Minha cama fica abaixo da janela, que por sua vez é adornada com uma persiana vertical que quase sempre está fechada. Com um olho aberto e o outro em crise, embaralhando as letras das páginas e sonhando acordado com mousse de maracujá, percebo que do meu lado direito, na porção inferior da persiana jaz um ganhafoto ninja, pronto para me dar o bote. Tá, não era bem um ganhafoto. Ganhafotos são gordos e melequentos, e rosnam. Era um bichinho bonitinho assim, um verde bem claro, acho que é o que chamam de esperança. Agora, veja que idéia, o animal tenta me matar e dão a ele o nome de esperança. Ele tinha que se chamar caos, destruição, infórtunio, terremoto ou qualquer coisa que o valha.

Eu tenho problemas graves com bichos e sujeira e afins. Eu lavo as mãos 326 vezes por dia. Evito afagos no meu cachorro porque obrigatoriamente, ao final, tenho de ir em busca de água e sabonete. Não deixo a namorada me pegar com a mão suja - sendo que o atributo mão suja é atribuído por mim de acordo com critérios altamente subjetivos e arbitrários - brigo com minha mãe quando ela me pede para pegar algo melequento na cozinha e não como pipoca no cinema. Isso para as coisas do dia-a-dia. Quando a situação envolve animais selvagens, ferrou tudo. Sou acometido por uma mistura de medo com asco, que se traduz em arrepios pelo corpo e um leve embrulho no estômago. A questão é que eu moro com minha mãe e duas das minhas irmãs, fato que me torna indubitavelmente o homem da casa; o macho-alfa, imbuído do nobre dever de promover a matança de seres estranhos que adentrem o nosso lar. Mesmo que isso signifique que eu precise tomar 6 banhos e ficar em estado de choque durante as 3 horas seguintes.

Bom, o grilo falante do Pinocchio veio me visitar e já tinha estragado meu sono, afinal eu havia saltado da cama e me colocado em estado de alerta total, prontamente preparado para qualquer hecatombe mundial que ocorresse em seguida. Acalmados os meus sexto e sétimo sentidos e a pulsação sanguínea que libera os meus poderes sobrenaturais, fiz a primeira tentativa de solução do problema, que foi devolver o meliante ao seu habitat natural. A essa altura, o habitat natural da criança era simplesmente o ar que preenchia o grande vazio exterior do 9º andar do meu prédio. Por sinal, como é que aquele jumento foi parar lá? Enfim. Com o bicho preparando o seu bote mortal na ponta direita da persiana, segurei a ponta esquerda e a levantei, com o intuito de elevar o grilo à altura da janela e assim poder desferir um golpe certeiro com o instrumento mortal de ataque dos Jedis urbanos (vulgo, sandália). Golpe este que mandaria o cretino para outra dimensão astral.

O legal é que, com a ação de elevar um dos lados da persiana, formou-se uma ladeira. O irracional do bicho certamente pensou que aquele era o momento ideal para fazer um hiking maroto e veio caminhando em minha direção. Simplesmente. Prontamente eu domei meu instinto interior de fuzilá-lo com uma emanação de cosmo supremo e baixei a persiana de volta ao seu ponto de origem. Ele, obviamente, ficou puto por ter a sua diversão interrompida, recobrou os sentidos e lembrou-se afinal qual era a sua missão: me assassinar. Jogou-se da persiana em minha direção, num vôo rasante e cruel.

Bravamente desviei-me da tentativa de estupro. O bandido bateu na minha perna direita e caiu no chão. Eu pensei: fodeu negão!, vou ter que interagir com o bicho. Por interagir, entenda: retribuir a tentativa de morte. Mas aí eu pensei que matar aquele grilo maldito iria acarretar na formação de um vatapá verde no piso branco do meu quarto. E depois eu teria que limpá-lo. Sem falar que o maior bicho que eu houvera matado na vida foi uma lagartixa, mesmo assim, quando da minha puberdade e a embriaguez de hormônios me dissera de maneira inconsequente, hipnótica e zumbística: pegue este pedaço de pau e mate-a, mate-a, MATE!, aí eu fui lá e, pimba, matei a pobre da lagartixa com uma paulada no meio do corpo. Fiquei 4 dias sem dormir, completamente traumatizado. Então decidi que não tentaria mais ser homem o bastante para matar qualquer ser-vivo maior que uma barata.

Dado esse pequeno histórico, tive uma idéia genial. Peguei uma camisa qualquer que eu já não usava com tanta frequência e joguei sobre o bicho, com o intuito de enrolá-lo e lançá-lo fora do meu reino. Vamos relevar que o grilo radioativo e fluorescente era detentor de uma inteligência infinitamente maior que a minha e conseguiu escapar da camisa por 2 ou 3 vezes. Na última tentativa, joguei a camisa, enrolando-a bem com os pés ao redor do verde-do-abismo, envolvi as mãos em sacos plásticos, capturei a camisa, dei uma leve apertada com o meu polegar opositor para o animal saber quem manda nessa merda. Dirigi-me até a sala, onde a janela é maior, e lancei através dela o conjunto de 60% algodão + 25% poliéster + 15% bicho-nojento que se encontrava em minhas mãos. A camisa foi e o grilo ficou.

o o o

Nessas horas eu sinto a imensa falta de ter um dragão de estimação chamado Toby. Simples. Toby!, pega o grilo. Solta o grilo. Toca fogo nele. Pisa. Morde de novo. Mastiga. Cospe. Incinera. Lambe as cinzas. Agora engole. Arrota. Isso, Toby - coisa mais linda do papai. Toma um biscoitinho, toma.

08:48 - - Idem:

[26.5.08]

beggining, back to the

Todos os cabelos vermelhos se tornaram uma sentença. Todos os olhos castanhos, um castigo. Todos os corpos pequeninos, um açoite sem piedade. Todas as costas alvas, um espelho, reflexo da minha estupidez. Todo cheiro doce, veneno inebriante. Tudo que há de belo nesse mundo é uma punição prontamente derramada, antes que eu possa sequer refletir sobre o porquê. Tudo me faz sentir a imensa dor de não ter te amado como eu deveria. Todos os sentimentos são meus acusadores, inimigos, detratores. Porque é bem verdade que nesse mundo somente amor não é o bastante. Mas é igualmente verdade que eu te amo. E o que faço agora, se todos os beijos são prisões?

09:11 - - Idem:

[15.5.08]

selvagem

Eu nem vou falar das coisas óbvias e sensacionais: o Rio de Janeiro é lindo, o bondinho é uma engenhosidade brilhante - não fui no Cristo porque a área onde fica o bondinho já violenta os seus olhos com uma quantidade suficiente de montes verdejantes para uma única viagem. Mas essa ida até lá me trouxe problemas graves: os primos da minha ilustríssima pequena tinham o jogo Rock Band inteiramente disponível para eu jogar. Cara, eu voltei do Rio deprimido. Eu necessito daquele jogo. Para a minha melancolia bruta e sem rumo, a porcaria do game só existe para plataformas de vídeo-game (PS2, PS3, Xbox 360 e Wii). Eu já não sou lá muito fã de video-game como nos tempos da minha infância/adolescência. Portanto, não justifica gastar 1.500 reais para comprar um Xbox, sem falar nas outras centenas de reais necessárias para comprar o Rock Band em si (outro vídeo aqui).

Para quem não conhece ou não entendeu, o Rock Band é como o famoso Guitar Hero. Um jogo que simula instrumentos musicais. As faixas coloridas na tela representam as notas/botões que você tem que pressionar para rolar a música. Enquanto o Guitar Hero só possui, obviamente, a guitarra (que é ridícula, por sinal), o Rock Band possui a guitarra, a bateria e um microfone (se você tiver mais uma guitarra, ela ainda pode funcionar como baixo). Mas a grande sensação do jogo, pra mim, é mesmo a bateria. Eu que sempre achei o instrumento algo impossível de tocar para uma pessoa tão sem coordenação motora e noção espacial, chorei só de poder fingir e me iludir que o menino não é tão difícil assim (na verdade é). Enfim, diversão garantida, vontade louca de comprar um só pra mim e a razão me dizendo calma, criança, calma. Bom, agora só resta esperar que saia uma versão do jogo para computador (não faço idéia de porque raios ainda não existe) ou seja, uma versão que não me obrigue a comprar um vídeo-game. Ou não.

Bom, já que o Rock Band representa um custo muito alto para uma diversão limitada (haja vista que eu não iria utilizar todo o potencial de um Xbox, por exemplo), volto minhas atenções para o surto capitalista anterior: Ipod Touch. Tela de 3.5 polegadas, multi-touch, 32 Gb de memória (flash), suporte a música+vídeo e conexão sem fio. Pequeninas lágrimas percorrem a minha face ao ver e desejar esse objeto multi-tudo e mais um pouco. Imaginar-me viajando, esperando a consulta do médico, indo dormir ou dançando a rumba enquanto assisto aos meus seriados favoritos, me causa um mini-orgasmo psicológico. As lágrimas produzidas discretamente pelos meus olhos são quase tão pequeninas quanto o precinho impraticável: 500 dólares.

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Dizem que a diferença entre adultos e crianças é o preço dos seus brinquedos... considerando que eu não posso obter irresponsavelmente brinquedos maravilhosamente caros e sensuais, isso me dá o direito de chorar por eles para a minha mãe?

12:22 - - Idem:

[7.5.08]

pequeno descanso

Cada dia que passa eu me torno mais vadia, mais traidor dos meus não-ideais. Nem chegou no meio do ano e eu já estive em Maceió, Belo Horizonte e agora estou indo para a dengosa cidade do Rio de Janeiro. Munido de 3 litros de repelente, obviamente; e me falecendo de medo de traficantes salafrários (sabe como é, a crise, o sensacionalismo jornalístico, enfim). Domingo estou de volta. Feliz dia das mães para vocês. Não trabalhem muito, porque eu estarei descansando ao sol do Leblon*, tá bom? Juízo e cuidado com os problemas cognitivos. Eles mordem.

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*Nem sei o nome do bairro que vou ficar, mas é certo que Banco Imobiliário mudou a minha vida ;D

08:24 - - Idem:

[5.5.08]

lack

Se você está por fora do assunto, o lance é o seguinte: o curso de medicina da UFBA foi mal na prova do ENADE. Instado a dar satisfações, o coordenador do curso flatulou na farofa e atribuiu o problema ao baixo Q.I dos baianos. Até aí nós teríamos ficados insanamente raivosos. Mas o amigo sem noção continua e diz que "o baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais, não conseguiria". Aí é sacanagem! Eu que havia ficado puto, não tive como não rir. Na entrevista ele ainda diz que berimbau é instrumento para quem tem problemas cognitivos. Sensacional! A matéria você pode conferir aqui.

O mais provável é que os alunos tenham boicotado a prova do ENADE, essa arte de menino querer ser engajado politicamente. Ainda mais depois que passam numa federal e começam a andar pela faculdade de calça jeans e sandálias havaianas. O fato é que eu tenho alguns amigos e conhecidos fazendo medicina na UFBA e todos são lindos e inteligentes. Até porque, a concorrência e o nível de cabeludice daquela prova de vestibular não permitiriam que qualquer um entrasse no curso.

Enfim, o velhote se ferrou, teve que renunciar ao cargo, mas acho que a carta dele foi uma boa tentativa de se redimir (aqui). Não muda o fato de que ele errou feio, falou bobagem pra caramba - mas ao afirmar que "sou baiano, como de resto toda a minha família e os mais longínquos dos meus ancestrais" ele parece recobrar o bom-senso.

Acredito realmente que ele falou aquele tanto de asneiras movido por pressões externas e etc etc. Certamente ele estava puto porque alguma gatinha de medicina não lhe deu a devida atenção, juntou mais um tanto de outras raivas e atirou para todos os lados. Tá cansado, tadinho.

Não sei se ele vai continuar dando aulas, mas caso caia em ostracismo, espero que ele use do tempo livre para aprender a tocar berimbau, deitado na rede da sua casa, enquanto gasta o seu imenso Q.I para refletir e desvendar os mistérios do universo. Vai descansar, tio, vai.

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E façam o favor de divulgar nos seus respectivos estados que isso tudo é mentira e que os baianos são lindos. Além de excelentes reboladores de bundas. E comedores de acarajé. E que somos pioneiros na avançada tecnologia de fabricação de redes. E problema cognitivo tem a mãe ;D

10:21 - - Idem:

[2.5.08]

no irony for you

Cara, eu acompanho House desde a primeira temporada e nunca conseguia me lembrar qual papel marcante o Hugh Laurie já tinha feito. Todo episódio era assistido com aquele sensação: de onde eu conheço esse cara mesmo? Agora destruiram tudo: li em algum canto que ele é o pai-mongol do filme Stuart Little. E aí embranqueceu-se aquele flash mágico na minha mente... putz!

Sério. Acabou. Perdeu todo o sentido. Toda vez que eu olhar para a cara do bruto do Dr. House vou imaginá-lo falando: um little hey, um little rá, um little aqui, um little lá... whatever, whatever - seja lá que babaquice era aquela. Vou passar o fim de semana em crise. Quero minha mãe.

o o o

Hei de comprar uma cobra naja só para alimentá-la de ratinhos brancos vestidos com mini-roupas coloridas. Morram ratos emos das profundezas.

12:30 - - Idem:

home
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errar ao acaso; vagabundear; sair arbitrariamente do assunto que estava sendo tratado; devanear; fantasiar.